Feno: um mercado promissor no mundo e pouco explorado no Brasil Destaque

Escrito por  Abr 02, 2020

O comércio mundial de feno, nas últimas duas décadas, alcançou um crescimento em diversos países graças à combinação de vários fatores, com dois destaques: as graves limitações no uso da água, principalmente em nações da Ásia e Oriente Médio; e o aumento global na demanda por proteínas de origem animal, principalmente lácteos. É o que relata o engenheiro agrônomo Duarte Vilela, pesquisador da Unidade Gado de Leite da Empresa Brasileira Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“O crescimento no consumo per capita na região Ásia-Pacífico é notório, onde se concentra 51% da população mundial e 31% dos lácteos consumidos no mundo”, diz o também mestre e doutor em Zootecnia.

Ao analisar as megatendências mundiais para 2050, como a integração econômica regional, Vilela ressalta que os países devem aprofundar a integração regional, econômica e política e, eventualmente, tomar medidas para formar um bloco político-econômico – a exemplo do Mercosul-União Europeia (EU) e as negociações bilaterais Brasil-Ásia.

Sobre a agricultura, o engenheiro agrônomo comenta a busca pela diversificação agrícola, que vem evoluindo de grandes produtores de commodities para grandes exportadores com maior valor agregado.

Novos mercados

Também cita as Mudanças nas Fronteiras dos Mercados, com o surgimento de novos mercados considerando que algumas regiões do mundo já atingiram seu potencial máximo, “enquanto outras ainda apresentam potencial inexplorado, a exemplo da China”.

Levando em conta esse cenário, Vilela acredita que “o mercado de feno pode também ser incluindo nessa análise, tendo em vista seu potencial ainda pouco explorado no Brasil”.

No País, a produção de feno ainda é extremamente baixa: apenas 40 mil hectares (ou até menos) de um total de 4,5 milhões de hectares na América Latina, em que o país líder é a Argentina, com quatro milhões de hectares.

Domínio da alfafa

De acordo com o engenheiro agrônomo, o mercado mundial de feno é dominado pela alfafa, seguido pelas gramíneas de alta qualidade, como as bermudas (Cynodon dactylon), aveia (Avena sativa), Timóteo (Phleum pratense), capim-sudão (Sorghum bicolor (L.)), azevém perene (Lolium perene (L.)), entre outras.

“A alfafa, além de produzir excelente feno, tem funções de múltiplos usos a exemplo do pastejo com vacas de alto valor genético para produção de leite.”

Considerando os números mundiais, Vilela aponta que, no ano passado, algo em torno de 8,5 milhões de toneladas métricas (MT) de feno foram comercializadas no mundo, por um valor global próximo a US$ 2,7 bilhões de dólares, sendo os principais fornecedores: Estados Unidos (4,5 milhões de MT), Austrália (1,14 milhões), Espanha (0,94 milhões), Canadá (0,34 milhões) e Itália (0,26 milhões de MT).

Os maiores importadores de feno foram Japão, China, Coreia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, responsáveis por 84% da demanda mundial. “A partir de 2018 houve expressivo aumento na demanda de feno da China, dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita”, destaca.

O número total negociado no mundo, apenas com feno de alfafa, foi próximo de seis milhões de toneladas em 2018, com uma área plantada de 32 milhões de hectares, sendo os EUA o principal fornecedor (55%), seguido por Espanha (9%), Canadá (5 %), Itália (3%) e França (2%).

América Latina

Com diferença considerável e com o território brasileiro em desvantagem, o pesquisador informa que, entre os países da América Latina que englobam uma área plantada de 4,5 milhões de hectares, se destacam: Argentina, com quatro milhões de hectares, seguido por Chile (170 mil), Peru (120 mil), Uruguai (70 mil) e o Brasil, com apenas 40 mil hectares (ou até menos).

Na visão de Vilela, o Brasil tem “grande potencial de expansão da área de produção (de feno), haja vista a possibilidade de se expandir ainda mais nos biomas Cerrado e Caatinga”.

“A Argentina, que ocupa o nono lugar em volume de comércio de feno, já exporta US$ 13,3 milhões de dólares. No Brasil, mesmo contando com grandes vantagens comparativas frente a outros países – como clima favorável, disponibilidade de terras agricultáveis, recursos humanos qualificados e novos mercados surgentes –, pouco se sabe sobre as estatísticas de mercado, mas acredita-se ser praticamente nulo.”

Apesar de ser um mercado ainda pouco explorado no Brasil, ele “poderá apresentar grandes avanços nos próximos anos, apesar de precisar fazer o dever de casa em algumas áreas”.

Comércio de megafardos

Segundo o engenheiro agrônomo, para o mercado mundial de feno, principalmente de megafardos recompactados, “é importante desenvolver novas máquinas de fenação, melhorar o método de processamento e de armazenamento, além de trabalhar na qualidade do produto”.

“Tipificar a qualidade do feno é uma exigência do mercado e deve ser compatível com o mercado mundial, sendo a análise de qualidade feita em laboratório credenciado, ter o certificado emitido por órgão competente confirmando que a qualidade de cada expedição é de acordo com as especificações mencionadas na proforma.”

De acordo com Vilela, o certificado fitossanitário emitido por autoridade competente de saúde do governo também pode ser exigido. “Todos os documentos devem ser preparados em inglês e enviados em lotes pelo correio.”

Para exemplificar, ele ressalta que o comércio de megafardos de alfafa recompactados, com 800 a 850 quilos, qualidade supreme (existem também o prime e o good, a tabela que acompanha o lote vem, normalmente, com as especificações abaixo:



“Além dessas especificações ainda podem ser exigidos a isenção de fungos, tamanho do corte, nível máximo de aflatoxina (10 ppb), livre de OGM (alguns países exigem este certificado para organismos geneticamente modificados) e de radiação, o grau de maturidade, precoce (“pré bloom” e hastes bem macias) e ainda o tipo de secagem, se ao sol ou artificialmente”, enumera o engenheiro agrônomo.

Em sua opinião, “seria muito importante desenvolver novas técnicas de desidratação e gerar tecnologias industriais de secagem artificial para outros derivados industriais, como cubos, pellets e farinados”.

Outra ação importante, conforme Vilela, “tanto para os mercados internos e externos, é gerar sistemas de rastreabilidade”.

Melhoramento genético

O pesquisador da Embrapa Gado de Leite ressalta que, no caso da alfafa, “o melhoramento genético específico para os trópicos (transgenia) e a produção de sementes nacionais, são temas que também devem permear uma agenda de pesquisa”.

“É essencial estudar o uso de polinizadores eficientes e, em alguns casos, contemplar a domesticação e o uso comercial de espécies polinizadoras nativas. Melhorar o valor nutritivo, não somente diminuindo a concentração de fibra, particularmente lignina, mas também aumentando o teor de carboidratos não estruturais é importante.”

Com menor teor de lignina – seja por meio de melhoramento tradicional (alfafa HiGest) ou por engenharia genética (alfafa HarvXtra), que já se comercializam nos Estados Unidos –, esses dois tipos de feno podem, em breve, ser difundidos para alguns países latino-americanos.

“Isso não somente aumenta a digestibilidade da planta, mesmo em estágio avançado de floração, como também diminui a produção de metano entérico pelos animais em pastejo, com consequente mitigação das emissões de gases de efeito estufa.”

Sistema de rotação

No manejo em sistema de rotação de cultura entre leguminosa e gramínea, a exemplo do sistema alfafa-milho ou mesmo alfafa-algodão, “pode-se considerar vantajoso pelo benefício de se incorporar nitrogênio residual deixado pela alfafa, na cultura subsequente, reduzindo o custo de produção, tanto pelo incremento na produção da gramínea quanto pela redução no gasto com fertilizante nitrogenado”.

“É importante avaliar a viabilidade econômica desta tecnologia, pois há escassez de dados dessa natureza em muitos países tropicais, mas ela surge como mais uma opção de negócio para os produtores nacionais de grão e fibras”, relata o pesquisador.

Cultivar Coast-cross

Lançado em 2017 pela Embrapa, o feno de gramíneas obtido com a cultivar Coast-cross é uma alternativa de alimento volumoso e de boa qualidade nutricional, adequado para a composição da dieta dos animais. Associado a fontes de energia – tais como silagem de milho, silagem de sorgo ou cana-de-açúcar –, ele pode reduzir substancialmente a necessidade de utilização de alimentos concentrados, refletindo no custo da produção de leite.

Conforme a estatal, ao longo dos anos, coeficientes técnicos foram observados e aprimorados para chegar a uma técnica de produção que propiciasse altas produtividades com custos adequados para a produção de leite.

Por meio dela são apresentadas informações detalhadas de cada fase do processo, desde a correção e preparo do solo, controle de invasoras, mudas, épocas de plantio, irrigação, manejo e estabelecimento da lavoura, colheita ou corte até a produção do feno.

Confira o documento da Embrapa que traz informações sobre o Coast-cross, clicando aqui.


Fontes: MilkPoint e Embrapa

Última modificação em Quinta, 02 Abril 2020 15:25
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